Lula, o segundo turno e um Congresso muito mais à direita
O resultado do primeiro turno de 2026 deixou uma mensagem que vai muito além da disputa pela Presidência da República. A direita saiu fortalecida das urnas, principalmente no Congresso e no Senado, e isso terá consequências para qualquer um que ocupe o Palácio do Planalto a partir de 2027.
O PL elegeu 121 deputados federais, formando a maior bancada da Câmara e alcançando um tamanho que não se via desde a eleição do antigo PMDB em 1986. No Senado, o partido também se tornou a maior força, chegando a 28 senadores.
Ao mesmo tempo, a esquerda praticamente manteve seu espaço. O que encolheu de maneira importante foi o centro político.
Esse talvez seja um dos aspectos mais preocupantes do resultado.
Durante boa parte dos governos anteriores, presidentes de diferentes partidos conseguiram construir maiorias negociando com esse enorme bloco de centro. Podemos criticar esse modelo — e há muitos motivos para isso —, mas ele permitia algum espaço de negociação entre governo e Congresso.
Agora esse espaço ficou menor.
Por isso, mesmo que Lula consiga vencer o segundo turno, seu quarto mandato provavelmente enfrentará um Congresso muito mais difícil. Projetos importantes dependerão de negociações com uma Câmara na qual a direita possui ampla presença e com um Senado no qual o PL passou a ocupar posição central.
Isso poderá ser especialmente importante diante de eventuais crises econômicas, fiscais ou energéticas que o próximo governo venha a enfrentar.
Por outro lado, uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro também encontraria um Congresso bastante diferente. Um governo alinhado ideologicamente com boa parte dessa nova composição poderia ter mais facilidade para colocar determinadas pautas em votação, inclusive privatizações, mudanças institucionais e propostas envolvendo o próprio funcionamento do STF.
É justamente por isso que o resultado do Legislativo talvez seja tão importante quanto o resultado presidencial.
O problema da comunicação do PT
Há também uma questão que o PT precisa discutir seriamente: comunicação.
Durante seu governo, Lula poderia ter utilizado muito mais a internet para conversar diretamente com a população e explicar seus programas, obras, investimentos e decisões.
Não basta governar. É preciso explicar o que está sendo feito.
O México oferece um exemplo interessante de comunicação direta do governo com a população, com transmissões frequentes pela internet para apresentar ações, decisões e projetos.
Lula poderia ter feito algo semelhante durante todo o mandato.
Depender da televisão aberta para conversar com o país é cada vez menos eficiente. Os jovens praticamente não assistem à TV aberta. Eu mesmo, aos 50 anos, há aproximadamente duas décadas assisto muito pouco. Basicamente acompanho algum jornal pela manhã antes de trabalhar.
Se isso acontece comigo, imagine com alguém de 18 ou 20 anos.
O PT precisa aprender com os jovens
O próprio resultado desta eleição oferece algumas pistas.
No Ceará, Elmano de Freitas conseguiu ser reeleito governador ainda no primeiro turno. É uma experiência que o PT deveria estudar para entender o que funcionou politicamente e eleitoralmente.
Outro fenômeno interessante foi Ana Elisa.
Com apenas 21 anos, ela conseguiu mais de meio milhão de votos em Minas Gerais e tornou-se uma das candidaturas de maior destaque do PT nesta eleição. Seu crescimento nas redes sociais mostra que existe espaço para uma esquerda jovem capaz de conversar na linguagem das novas gerações.
Do outro lado, Nikolas Ferreira demonstrou mais uma vez a enorme capacidade eleitoral construída pela direita nas redes sociais.
Talvez esteja aí uma das principais lições de 2026: política hoje também é comunicação permanente.
Não adianta aparecer nas redes apenas durante a campanha.
Lula ainda tem o segundo turno
O primeiro turno terminou com Flávio Bolsonaro com 47,03% dos votos válidos e Lula com 45,16%.
Portanto, a diferença existe, mas é inferior a dois pontos percentuais.
O segundo turno será uma nova eleição. Os dois candidatos precisarão disputar os eleitores que escolheram outras candidaturas, os que votaram em branco ou nulo e também parte dos que não compareceram.
Para o PT, talvez seja também o momento de colocar uma nova geração na linha de frente da campanha.
Usar melhor as redes, falar diretamente com os jovens e permitir que novas lideranças tenham protagonismo pode ser tão importante quanto os tradicionais atos políticos.
Mas, olhando para a composição da Câmara e do Senado que saíram das urnas, fica uma pergunta que considero ainda maior:
mesmo vencendo, quanto Lula conseguiria governar?
Um eventual quarto governo Lula encontraria provavelmente o ambiente parlamentar mais adverso de seus quatro mandatos. A redução do centro diminui justamente o espaço no qual tradicionalmente se construíam acordos de governabilidade.
Já um eventual governo Flávio Bolsonaro encontraria uma bancada numerosa ideologicamente próxima de diversas de suas pautas, embora isso não signifique apoio automático a todos os seus projetos.
O Brasil, portanto, não está escolhendo apenas um presidente.
A eleição de 2026 também produziu uma transformação profunda no Congresso Nacional, e seus efeitos serão sentidos durante os próximos quatro anos, independentemente de quem vencer o segundo turno.
E talvez essa seja a imagem mais simbólica desta eleição: aos 80 anos, Lula novamente chega às últimas semanas de uma campanha presidencial como a principal liderança eleitoral de seu campo político.
Para a esquerda, independentemente do resultado final, fica outra questão inevitável:
quem estará preparado para ocupar esse espaço quando Lula não estiver mais nas urnas?

Comentários