Os tambores da guerra: um mundo preso no atoleiro

 

Há pouco mais de um século, a Europa descobriu da pior maneira possível que entrar em uma guerra pode ser muito mais fácil do que sair dela.

Na Primeira Guerra Mundial, depois da movimentação inicial dos exércitos, grande parte da Frente Ocidental transformou-se em um gigantesco atoleiro. Franceses, britânicos e alemães ficaram presos durante anos em sistemas de trincheiras que atravessavam a França e a Bélgica. Milhões de homens morreram para conquistar, perder e reconquistar poucos quilômetros de terreno.

Enquanto os soldados afundavam literalmente na lama, os impérios começavam a afundar politicamente.

O Império Russo entrou em colapso e a Revolução de 1917 abriu caminho para a formação da União Soviética. O Império Alemão desapareceu. O Império Austro-Húngaro se desintegrou. A velha ordem europeia, que imaginava controlar a guerra iniciada em 1914, terminou destruída por ela.

As cortes, os generais e os governos que acreditavam administrar uma guerra limitada descobriram tarde demais que haviam colocado em movimento forças que já não conseguiam controlar.

Um novo atoleiro

Guardadas todas as enormes diferenças históricas, é difícil não perceber uma imagem semelhante no mundo atual.

A guerra na Ucrânia entrou em seu quinto ano e transformou-se também numa disputa de resistência econômica, industrial e tecnológica. A própria Ucrânia enfrenta enormes necessidades financeiras para sustentar o esforço militar, enquanto a Rússia direciona uma parcela crescente de seus recursos para a guerra. Não existe gratuidade nesse conflito para nenhum dos lados.

A Europa, por sua vez, iniciou uma expansão histórica de seus gastos militares. O Banco Central Europeu estima que os novos gastos de defesa incorporados às projeções representarão cumulativamente cerca de 1,5% do PIB da zona do euro entre 2025 e 2028.

Isso não significa automaticamente o fim do Estado de Bem-Estar Social europeu. Seria exagerado afirmar isso como fato consumado. Mas significa que uma escolha difícil começa a aparecer.

O próprio FMI alerta que grandes expansões militares podem pressionar dívida e déficits e, quando financiadas pela realocação de despesas, podem reduzir recursos destinados à proteção social, saúde e educação. É o antigo dilema econômico entre “canhões e manteiga” retornando à Europa.

Ao mesmo tempo, países como a Alemanha enfrentam uma grave crise habitacional. Em 2024, cerca de 532 mil pessoas estavam sem moradia própria no país, segundo dados citados pela imprensa alemã, enquanto encontrar habitação acessível tornou-se extremamente difícil em grandes centros urbanos.

A questão que os europeus precisarão responder é simples e brutal: quanto de sua prosperidade construída depois de 1945 estão dispostos a comprometer para sustentar uma nova era de confrontação militar?

O clube dos sancionados

Existe ainda outra consequência que talvez tenha sido subestimada pelo Ocidente.

Sanções deveriam isolar seus alvos. Mas, quando muitos países são sancionados simultaneamente, eles passam a ter incentivos para cooperar entre si.

Rússia, Irã e Coreia do Norte são exemplos disso.

Moscou aprofundou suas relações estratégicas com Teerã e Pyongyang. A Rússia empregou drones iranianos na guerra da Ucrânia, enquanto a cooperação militar entre russos e iranianos avançou para outras áreas. Em 2026 surgiram relatos de compartilhamento russo de imagens de satélite e tecnologia de drones com o Irã, embora parte dessas informações não tenha podido ser verificada independentemente.

A Coreia do Norte também aprofundou dramaticamente sua relação com Moscou, inclusive no campo militar.

Forma-se, assim, algo que poderíamos chamar de “mercado comum dos sancionados”.

Não é uma organização formal. Não existe um tratado criando esse mercado. É uma consequência prática da pressão externa: países impedidos de comprar determinadas tecnologias, componentes ou produtos no Ocidente procuram fornecedores alternativos, desenvolvem substitutos domésticos e compartilham conhecimentos com outros Estados submetidos às mesmas restrições.

A sanção deixa então de produzir apenas isolamento. Ela também produz adaptação.

Sanções também ensinam

Existe um paradoxo nisso.

Quando você impede permanentemente um país de comprar alguma coisa, ele possui basicamente três opções: desistir dela, encontrar outro fornecedor ou aprender a produzi-la.

Rússia e Irã estão sendo empurrados há anos para a terceira alternativa.

Isso não significa que as sanções sejam inofensivas. Muito pelo contrário. A Rússia enfrenta crescimento baixo, pressão fiscal e necessidade de elevar impostos para financiar seus gastos militares. Seu orçamento de 2027 prevê simultaneamente aumento das despesas militares e redução de gastos sociais, educacionais e de saúde.

Portanto, seria errado imaginar uma Rússia enriquecendo tranquilamente com a guerra.

Mas também seria errado imaginar que ela simplesmente parou de funcionar.

Projetos energéticos continuam avançando mesmo depois da retirada de investidores estrangeiros. O gigantesco projeto Vostok Oil, por exemplo, iniciou exportações comerciais em 2026 apesar das sanções e das dificuldades de financiamento e tecnologia.

A guerra econômica produz sofrimento, mas produz também adaptação industrial.

E então chegamos aos Estados Unidos

Os Estados Unidos continuam sendo a maior potência militar do planeta. Mas poder não significa capacidade ilimitada.

A confrontação simultânea com Rússia, Irã e China, somada às obrigações com aliados, começa a revelar os limites materiais de qualquer estratégia baseada na ideia de que Washington pode pressionar todos os seus adversários ao mesmo tempo.

O confronto com o Irã oferece um exemplo interessante. Depois de meses de hostilidades e bloqueio, americanos e iranianos passaram a discutir uma solução negociada envolvendo a reabertura do Estreito de Ormuz e o relaxamento de medidas econômicas.

Esse talvez seja o ponto central.

Nenhuma potência é onipotente.

Nem os Estados Unidos.

Nem a Rússia.

Nem a China.

Nem a Europa.

Todos precisam declarar alguma vitória

As guerras terminam quando os participantes encontram uma saída que conseguem apresentar às suas sociedades como aceitável.

Esse talvez seja o problema mais perigoso do momento atual.

Cada lado precisa de alguma coisa.

A Rússia precisa demonstrar que quatro anos e meio de guerra produziram algum resultado estratégico.

A Ucrânia precisa preservar sua existência, soberania e capacidade de reconstrução.

A Europa precisa demonstrar que seus enormes investimentos militares aumentaram sua segurança.

O Irã precisa demonstrar que resistiu à pressão externa.

E os Estados Unidos precisam encontrar uma maneira de mostrar que continuam capazes de liderar sem permanecer indefinidamente envolvidos em conflitos caros.

Enquanto nenhuma fórmula oferece algo minimamente aceitável para todos, a guerra continua.

É exatamente assim que surgem os atoleiros históricos.

O perigo maior é não existir quem consiga negociar

Durante a Primeira Guerra Mundial, também houve momentos em que todos sabiam que o custo era monstruoso, mas ninguém conseguia encontrar uma saída politicamente aceitável.

Em 2026, até o papa Leão retomou uma mensagem semelhante àquela feita por Bento XV em 1917: em algum momento, negociar a paz exige coragem para fazer concessões.

Mas quem hoje possui legitimidade para mediar os grandes conflitos?

A liderança americana tornou-se muito mais imprevisível. A relação entre Washington e seus próprios aliados europeus passa por tensões profundas, enquanto a Europa procura construir maior autonomia militar.

China, Índia, Turquia, Brasil e outras potências médias tentam ampliar seus espaços diplomáticos, mas nenhuma delas, isoladamente, parece possuir força suficiente para impor uma grande negociação.

Faltam mediadores.

E talvez faltem estadistas.

E o Brasil?

O Brasil também está inserido nessa disputa internacional.

Não é necessário recorrer a teorias conspiratórias para perceber que as eleições brasileiras adquiriram dimensão geopolítica. Em setembro de 2026, autoridades brasileiras chegaram a apresentar a representantes franceses e alemães informações sobre alegadas interferências estrangeiras no processo eleitoral, incluindo ações atribuídas aos Estados Unidos. As acusações são brasileiras e precisam ser tratadas como tais, não como fatos automaticamente estabelecidos.

Nesse ambiente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, aos 80 anos, continua ocupando uma posição central no campo político que o apoia.

Mas o problema brasileiro é maior do que Lula ou qualquer outro candidato.

É saber se a América do Sul conseguirá preservar capacidade própria de decisão em um mundo novamente dividido entre grandes potências.

Os tambores continuam

Talvez seja essa a grande lição esquecida de 1914.

As grandes potências entraram naquela guerra acreditando que seriam capazes de controlá-la.

Não foram.

Os generais imaginavam vitórias rápidas.

Não vieram.

Os governos acreditavam que suas economias suportariam o conflito.

Algumas não suportaram.

Os impérios acreditavam que sobreviveriam.

Quatro desapareceram.

Hoje novamente ouvimos discursos sobre força, rearmamento, bloqueios, sanções, linhas vermelhas e vitórias inevitáveis.

Mas a História raramente obedece aos planos daqueles que iniciam os conflitos.

Russos, europeus, americanos, iranianos, ucranianos e seus aliados possuem capacidade suficiente para continuar causando enormes prejuízos uns aos outros. O que nenhum deles parece possuir é força suficiente para alcançar todos os seus objetivos sem pagar um preço extraordinário.

É isso que caracteriza um atoleiro.

E o mundo parece novamente estar entrando em um.

A diferença é que, desta vez, existem armas nucleares.

Por isso, mais do que generais capazes de vencer batalhas, precisamos de líderes capazes de terminar guerras.

Os tambores estão tocando.

O problema é que ninguém parece saber como fazê-los parar.

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